quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Cereais Matinais - Bonzinho ou Vilão?

Teste com 18 cereais matinais de maior presença no mercado de alimentos infantis mostra que a maioria dos produtos contêm açúcar e sódio em excesso e poucas fibras. A avaliação foi feita pela Pro Teste (Associação Brasileira de Defesa do Consumidor).

Dez dos produtos analisados continham menos de 3g de fibras a cada 100g de cereal. Duas amostras não tinham nem 0,01% daquele material em sua composição. As outras apresentavam entre três e cinco gramas e foram consideradas apenas aceitáveis. Para a PRO TESTE, o teor de fibra ideal para este produto é de pelo menos 6%.

Por outro lado, sobrou sódio. Apenas três marcas apresentaram, numa porção de 100g, níveis inferiores a 10% do valor diário recomendado para consumo. Uma porção de 30g dos demais produtos equivale a mais de 50% do que uma criança pode ingerir em um dia.

Amostras têm mais de 50% do sódio diário indicado para crianças!


O excesso de açúcar também marcou a avaliação. Os cereais apresentaram de 7,5g a 13g desse carboidrato por porção de 30 gramas. O excesso da substância pode provocar obesidade e doenças como a diabetes. Além disso, acostuma o paladar da criança com sabores muito doces. Assim, pratos saudáveis e pouco açucarados podem não agradar.
Outro problema é que, apesar de ser um produto tipicamente infantil, os valores de cada nutriente dos cereais faziam referências a dieta de um adulto – 2000 kcal.
Seis produtos também apresentaram níveis altos de gordura e, dentre esses, quatro tinham mais gordura saturada do que a média. Em compensação, nenhuma amostra apresentou gordura trans.

Uma porção de 30 gramas de sucrilhos de chocolate da Kellogg's (uma tigelinha), por exemplo, tem 205 mg de sódio. Uma criança de um a três anos deve consumir, por dia, no máximo 225 mg desse mineral, ou seja, uma única porção equivale a 90% das suas necessidades diárias. Para um adulto, essa quantidade de sódio representa 10% das necessidades.

Todos os cereais matinais também têm açúcar em excesso, de 5,5 a 13 gramas por porção. De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), o ideal é que uma criança de até três anos consuma, no máximo, 14 gramas por dia de açúcar.
Uma porção do sucrilho sabor banana, por exemplo, tem quase toda a quantidade diária de açúcar recomendada para uma criança nessa faixa etária.
Presente no sal e base para conservantes, o sódio em excesso está ligado à hipertensão arterial e a problemas renais. Já muito açúcar tem relação com obesidade e diabetes tipo 2.

Fibras

Dos cereais analisados, dez marcas apresentaram menos de três gramas de fibras para cada 100 gramas do produto --três gramas é a quantidade mínima para um alimento ser considerado fonte de fibra. Os cereais Corn Flakes (todos os sabores) e Chokos tiveram o pior desempenho no teste: possuem menos de 0,01% de fibra, ou seja, praticamente nada.

Um outro problema que envolve os cereais analisados e a maior parte de alimentos consumidos pelo público infantil é a falta de adequação da tabela nutricional à faixa etária a que o produto se destina. O percentual diário recomendado de cada nutriente é calculado para uma dieta de 2.000 Kcal, que corresponde à necessidade calórica de um adulto, não de uma criança.

A dieta de uma criança de um a três anos, por exemplo, deve ser de 1.050 Kcal, segundo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). De quatro a seis anos, esse valor sobe para 1.450 e, de sete a dez anos, para 1.750. O ideal seria que essas informações fossem apresentadas de acordo com a faixa etária. Seria muito mais útil aos pais.

"Isopor food"

As pessoas escolham o cereal matinal pelo menor índice de sódio e açúcar e maior presença de fibras solúveis. Os pais não devem se impressionar pelas vitaminas e sais minerais contidos no rótulo dos produtos. O que não pode é ficar comendo essa quantidade de sódio e açúcar e quase nenhuma fibra!

O outro lado – Fabricantes:

Fabricantes de cereais avaliados dizem que seus produtos seguem as recomendações da Anvisa e que todos os dados sobre os nutrientes estão disponíveis nas embalagens dos produtos.

A Kellog's disse que seus cereais (Sucrilhos, Sucrilhos Chocolate, Sucrilhos Banana, Choco Krispis, Froot Loops, Chokos e Honey Nutos) "contêm vitaminas e minerais essenciais, são isentos de gordura trans e colesterol, além de alguns ainda possuírem alto teor de fibra alimentar", mas a pesquisa apontou teores baixos de fibras em cinco dos seis cereais analisados e "aceitável" em um.
Quanto ao sódio, a Nestlé afirma que seus cereais são para crianças de seis a oito anos (consumo diário de até 1.219 mg por dia) e de nove a 13 anos (até 1.495 mg), e não para aquelas entre um e três anos. Os seus pacotes, entretanto, não citam a idade recomendada.

A Nestlé afirma ainda que a quantidade de sódio usada como padrão pelo teste, mesmo para crianças de um a três anos, é desatualizada. A empresa diz que o nível recomendado vai até 966 mg por dia (a Anvisa recomenda 225 mg/dia), conforme o padrão DRI (Dietary Reference Intakes).

A Nestlé afirma que não usa uma publicidade que crie "expectativas irreais de popularidade" nem que exiba "cenas de crianças na tentativa de persuadi-las". A empresa produz o Snow Flakes, o Snow Flakes Chocolate, o Nescau, o Estrelitas, o Estrelitas Chocolate, o Crunch e o Moça Flakes.

Fonte: Folha Online



A PRO TESTE (Associação Brasileira de Defesa do Consumidor) está promovendo uma grande campanha para melhorar a qualidade da alimentação infantil e conta com a sua participação.

Atualmente, os alimentos vendidos para crianças não adotam normas específicas de preparo e conservação e nem limitam o uso de açúcar e gordura.

Um bom exemplo de como as crianças podem ser prejudicadas em sua saúde seria a ingestão de dois biscoitos recheados e um potinho de petit suisse. Ambos equivalem a, respectivamente, 6,5% e 27% do que uma criança da faixa etária de 4 a 7 anos necessita diariamente de açúcar. Outro exemplo seria o consumo de uma fatia de bolo pronto, que equivale a 50% das necessidades diárias de gordura dessas crianças.

Assine agora:
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sábado, 14 de junho de 2008

Ácidos Graxos Trans, Fitoesteróis e Doenças Cardiovasculares

Por: Nutricionista Caio Reis e Dra. Jane Dullius, coord. do Prog. Doce Desafio/UnB.

Artigos comentados:

1 - Willett WC. Trans fatty acids and cardiovascular disease - epidemiological data. Atherosclerosis Supplements 7 (006) 5-8.

2 - John S, Sorokin AV, Thompson PD. Phytosterols and vascular disease. Curr Opin Lipidol. 2007: Feb;18(1):35-40.

Discussões têm sido apresentadas acerca dos riscos do aumento de doenças cardiovasculares (DCV), relacionadas ao consumo de lipídios na dieta. DCV são a principal causa de mortalidade em diabetes e orientações quanto à dieta e consumo são necessárias e usuais. Aqui, apresentamos algumas dessas colocações.

No primeiro artigo, Willett faz uma revisão epidemiológica sobre evidências que relacionam ácidos graxos trans (AGT) com o risco de DCV. O segundo artigo é um estudo de revisão com objetivo de examinar as evidências que ligam o uso de suplementos de fitoesteróis com DCV.

Segundo o Codex Alimentarius (1996), AGT são AG insaturados com pelo menos uma dupla ligação na conformação trans, sendo isômeros geométricos e de posição dos AG cis insaturados correspondentes. São encontrados, naturalmente, no processo de biohidrogenação dos animais ruminantes. Em 1903, o químico alemão Wilhem Normann desenvolveu a técnica de hidrogenação dos óleos vegetais, sendo lançada a primeira gordura vegetal hidrogenada, em 1911, chegando ao Brasil na década de 60.

Indústrias Alimentícias

O AGT é bastante utilizado pelas indústrias alimentícias na fabricação de produtos como panificados, doces, biscoitos, fast food, entre outros, devido a suas características sensoriais, como maior resistência à oxidação, maior estabilidade, baixo custo, bom substitutivo da manteiga e da banha animal.

Fitoesteróis são esteróis de fonte vegetal, que constituem uma classe de lipídios derivados de um anel saturado de quatro membros, com um grupo hidroxil na terceira posição. No organismo, atuam na diminuição da absorção de colesterol no intestino delgado por um mecanismo de competição, com conseqüente aumento na excreção fecal. Isso ocorre porque a estrutura química dos fitoesteróis é semelhante à do colesterol, diferindo apenas no tamanho da cadeia.

Há, aproximadamente, 44 esteróis conhecidos nas plantas e suas formas mais comuns são o campesterol, sitosterol e estigmasterol, sendo encontrados principalmente em óleos vegetais, nozes e hortaliças. Estudos vêm mostrando evidências de que os fitoesteróis saturados, como o sitostanol, inibe a absorção de colesterol com maior eficiência do que os esteróis vegetais mais hidrofílicos, como o beta-sitosterol.

Estes fitoesteróis saturados são encontrados em quantidades muito pequenas nas dietas normais, mas podem ser produzidos comercialmente. No Brasil, alguns alimentos já estão sendo enriquecidos com fitoesteróis, mas seu valor comercial ainda é bastante elevado - uma unidade de creme vegetal de 250g custa atualmente por volta de 10,00 reais.

Seu uso deve ser feito com cautela, pois ainda não há consenso dos benefícios à saúde e alguns estudos sugerem que uma alta absorção pode levar à fitoesterolemia, que pode desenvolver, prematuramente, DCV. Fitoesteróis já foram encontrados em lesões ateroscleróticas.

Willett mostra que, coincidentemente, o aparecimento das DCV aumentou com a introdução e popularização dos alimentos ricos em AGT, a partir da década de 50, nos EUA - mas devem ser também considerados os vários outros fatores ambientais envolvidos nesse processo. Vários estudos vêm mostrando a ligação do consumo de AGT com o aumento do risco de DCV em diversos países, mesmo tendo hábitos de vida bem diferentes.

Margarina

No Nurses' Health Study, os dados sobre o consumo de AGT começaram a ser coletados em 1980. A primeira publicação foi em 1993, após dez anos de acompanhamento, sendo encontrada associação positiva entre o consumo de AGT e DCV, o risco chegando a ser 70% maior em pessoas que consomem quatro ou mais porções de margarina por dia.

Posteriormente, Dr. Frank Hu atualizou a pesquisa, expandindo para 14 anos de acompanhamento e encontrou como resultado quase 1 mil casos de DCV na amostra estudada. Em 2005, foi publicada mais uma etapa da pesquisa, com acompanhamento de 20 anos, e mais de 2000 casos de DCV foram encontrados. Ambos os estudos mostraram uma associação mais forte do AGT no risco DCV quando comparado ao consumo de AG saturado e que os AG mono e poliinsaturados, quando consumidos, funcionam como agentes protetores à saúde.

No estudo holandês que Oomen et al conduziram por dez anos, eles obtiveram resultados similares. Dados epidemiológicos de estudos prospectivos mostram que, para um aumento de 2% no consumo de AGT do VET, o risco relativo aumenta em 25%. E em dois estudos recentes, conduzidos na Costa Rica (Campos et al), casos-controle utilizando biomarcadores do consumo de AGT tiveram seus resultados, mostrando um aumento no risco para DCV três vezes maior quando comparado o maior e o menor quintil de consumo da amostra.

Segundo dados de revisão no artigo de John et al (2007), a redução da LDL-C, obtida por suplementação com fitoesteróis e estanóis, em doses de 0,7 g - 2,5 g/dia, varia entre 6,7% e 11,3%. Este efeito é aditivo ao efeito das estatinas e a adição de 5,1 g/dia de fitoesterol a estatinas produz, adicionalmente, 15% de redução no LDL-C.

Ambos os fitoesteróis e estanóis são bem tolerados e têm poucos efeitos colaterais. Há pelo menos sete estudos que tenham analisado a possibilidade dos fitoesteróis contribuírem para o risco de DCV. Glueck et al foram os primeiros a sugerir que a elevação dos fitoesteróis pode ser um fator de risco para DCV, dando a entender que esses, em taxas elevadas, são um fator de risco.

Sutherland e Williams (1998) referem que o aumento da absorção do fitoesterol pode ser um indicador de aumento da absorção do colesterol. Rajaratnam et al sugeriram que a baixa síntese de colesterol pode causar um aumento da absorção e, adicionado com os níveis de fitoesterol, pode aumentar o risco de DCV.

Sudhop et al observaram níveis de fitoesterol aumentados entre os doentes com história familiar de DCV. Miettinen et al sugeriram que o aumento da absorção do fitoesterol pode contribuir para o desenvolvimento de lesões ateroscleróticas.

O Prospective Cardiovascular Munster relatou que pacientes com níveis de sitosterol de 5.25mmol/L apresentaram aumento de 1,8 no risco de DCV, passando esse valor a superior a 20%, em dez anos. Dallas Heart Study sugere que fitoesterol sérico não contribui para DCV.

Estudos usando fitoesteróis em humanos são confusos, por não provarem ou refutarem o aumento do risco de arteriosclerose, claramente relacionado com níveis séricos de fitoesterol. Estudos adicionais sobre este tópico são claramente justificados. A promoção do uso de plantas ricas em fitoesteróis na redução do LDL-C está aumentando, mas exige prudência com as doses, não devendo exceder 2 g/dia.